Salve 006 - Conan: The Dark Axe


Por Ronan Barros

É o pior jogo de Playstation 2? Talvez. Mesmo no seu lançamento ele já era datado? Com certeza. Os comandos são horríveis? Total. Os gráficos parecem Playstation 1? Em alguns momentos parecem até piores. É um lixo? Completo. Mas… EU AMO ESTE JOGO. Este é Conan: The Dark Axe, lançado pela Cauldron em 2004 para Playstation 2, Xbox, GameCube e PC. Acho que o review poderia parar aqui… mas… sério… eu preciso defender o indefensável (muito prazer, meu nome é otário).

Eu conheci o personagem Conan por volta dos meus 8 a 9 anos em uma revista em quadrinhos chamada A Espada Selvagem de Conan. Na época havia um preconceito comum de que qualquer quadrinho era considerado coisa de criança… bom… Espada Selvagem de Conan definitivamente não era. O impacto daquela história, chamada A Maldição da Lua Crescente, reverbera até hoje em mim. Havia traição, erotismo, crucificação, sadismo, vingança e uma moral dúbia na grande maioria dos personagens. Todos eram movidos por algum interesse. Nem Conan, nosso suposto herói, era lá um cabra muito honesto ou confiável. Mas… uma coisa era certa: Conan resolvia suas pendências. Este foi meu primeiro de muitos contatos. Daquele momento em diante eu me tornei um fã bastante assíduo do personagem. Acompanhei quadrinhos, livros, games, filmes e hoje eu tenho facilmente mais de uma centena de produtos relacionados ao bárbaro. De action figure até a própria espada pendurada na parede. No meio disso tudo, claro… havia também os games.

Durante muito tempo o melhor jogo de Conan, para mim, era Golden Axe da SEGA, ou seja, um jogo que na verdade não era de Conan (apesar da influência óbvia). E aqui não precisa de malabarismo: dentro do contexto retrô, Golden Axe é realmente um ótimo game. Várias vezes me pego jogando e me sentindo o próprio Conan na Era Hiboriana (era fictícia onde ele viveu). Por volta dos anos 2000 eu conheci a existência de games oficiais do personagem em consoles como Nintendinho ou computadores Amiga, porém, com muito pesar, estes games eram muito ruins e de dificílimo acesso.

Mas em 2004 sairia um novo game do personagem: Conan The Dark Axe, o primeiro jogo totalmente em 3D do bárbaro. Isso mudaria completamente o seu histórico no mundo dos games, certo? Então… infelizmente… não. O game só foi lançado na Europa, o que já tornava difícil seu acesso (mesmo sabendo de sua existência, eu só consegui ter contato com ele apenas um ano depois de seu lançamento, graças à pirataria de PS2 que reinava no Brasil). Além do difícil acesso, as qualidades dele são exatamente como descrevi lá no início. Tudo no jogo, mesmo na época de seu lançamento, parecia datado, truncado e… feio. Em uma comparação de jogabilidade, eu diria que Conan The Dark Axe se faz sentir muito como os primeiros jogos de Tomb Raider: o jeito de andar, o modo como as fases são construídas, os puzzles, os mapas, a linearidade… enfim… tirando o fato de que o combate e a ambientação são totalmente diferentes, mecanicamente eu sinto Conan um tanto parecido com Tomb Raider. E olha… apesar de Tomb Raider ser uma franquia de sucesso estrondoso, esta comparação não é engrandecedora, porque… bom… o primeiro Tomb Raider é de quase 10 anos antes de Conan. Mesmo em seu lançamento, Conan já se sentia fóssil.

Em meio a tanto desalento uma coisa pelo menos era certa: era Conan. Oficial. E, pela primeira vez, totalmente em 3D. Logo na pitoresca CG de abertura é tocada uma música que faz parte da trilha sonora dos filmes de Conan, uma das coisas mais incríveis que esta franquia (e o cinema) já produziu. Isso facilmente fez meus pelos arrepiarem. Quando o jogo começou, sim, tudo era feio, quadrado e truncado, mas — e agora eu não sei como descrever a sensação disso — era familiar. Eu conhecia aquele cenário. Eu sabia exatamente onde o personagem estava naquele universo. Eu reconhecia a espada que ele estava usando e eu reconhecia até alguns movimentos. “Caracas… é Conan.” Se este jogo tivesse outro nome, eu definitivamente o chamaria de Conan. Porque… por mais que ele tenha defeitos (e ele tem), ele traz diversos elementos do personagem. E o jogo, mesmo sendo grosseiro, estava me dando a chance de pertencer um pouco àquele universo.

A história pega a velha máxima de Conan em busca de vingança contra um líder de uma estranha seita que chacinou sua vila. Algo extremamente semelhante ao que acontece no primeiro filme do personagem. Isso serve de pretexto para fazê-lo viajar por todo o continente, o que é um deleite para um fã como eu. Porque… bom… aqueles lugares sempre estiveram no meu imaginário e, agora, eu meio que posso explorá-los. Eu conheço a Ciméria, cheia de neve e terra natal do personagem. Eu conheço o rio Trovão, onde Conan enfrentou pictos no conto Além do Rio Negro. Eu conheço Kordava, cidade portuária vizinha de Argos. Eu conheço a Stygia, um reino venenoso e desértico, com magias obscuras e lar de Thoth-Amon. Eu conheço as selvas de Darfar, nas terras escuras… e não para por aí. Além dos lugares, o jogo faz imensas referências a acontecimentos marcantes do universo do bárbaro. Escalar uma torre em busca de uma joia mística é referência direta de contos originais, que também têm lastro tanto em quadrinhos como em filmes. O camelo vomitando é uma referência direta a uma cena clássica dos filmes. Enfrentar uma cobra gigante? Cena clássica dos filmes. As espadas e até os movimentos dos combos… adivinha? São tiradas do cinema. O final então nem tem o que dizer… eles praticamente recriaram o epílogo do filme no jogo, tocando ao fundo, claro, a trilha sonora clássica.

Perante isso tudo, é impossível jogar este game e não se sentir o próprio Conan. E é por isso que eu amo este jogo. Mesmo com seus defeitos. Ele não é o melhor jogo de Conan já produzido, mas definitivamente é o que mais acerta em entregar algo coeso com todo o universo e em te inserir diretamente na Era Hiboriana.

E é aí que está a mágica. Porque, quando a espada corta o ar, quando os tambores da trilha ecoam, quando a fumaça da batalha se ergue diante de mim… não importa se os gráficos são quadrados ou se os controles travam.

Naquele momento, eu não estou apenas jogando.
Naquele momento… eu sou Conan.

Por Crom!



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