Save 002 - Captain America: Super Soldier


Por Ronan Barros

Ok, vamos tirar o elefante da sala logo de cara: eu gosto do Capitão América. Gosto muito. Eu sei, eu sei... tem toda a carga simbólica do imperialismo, do escudo como bandeira de um certo “modo de vida”, da guerra pintada de heroísmo... eu entendo tudo isso. Mas, ainda assim, eu gosto do Capitão. Gosto do Steve Rogers e da moralidade quase brega dele, daquele heroísmo escoteiro que não se esconde. Tenho uma coleção considerável de HQs dele aqui em casa, então, sim... o que você vai ler tem viés de apreciação. Então... siga por sua conta e risco.

O Capitão nunca foi um queridinho dos videogames como o Batman ou o Homem-Aranha. Se a gente for contar mesmo, esse Captain America: Super Soldier é só o segundo jogo em que ele é protagonista de verdade. O primeiro? Um beat 'em up jurássico de arcade, lá da era do fliperama suado e ficha de metal. Depois disso, ele até deu as caras em vários jogos, mas sempre como coadjuvante. Um botãozinho especial. Nunca o centro da coisa.

E aí vem esse jogo. Lançado em 2011, colado no lançamento do primeiro filme do Capitão no MCU. Dá pra sentir que ele nasceu sob a sombra do marketing. É todo integrado ao universo do filme, com a presença dos próprios atores emprestando suas vozes: Chris Evans, Hayley Atwell, Sebastian Stan, Neal McDonough... o time tá completo. O visual também segue o mesmo estilo do longa, e até os cenários respiram aquela mistura de ficção científica retrô com Segunda Guerra estilizada que virou marca da Marvel nesse período.

A história? Simples, direta e, me perdoem os fãs do cinema, mais divertida do que a do próprio filme lançado na época. Mas isto é papo pra outro momento. Aqui, o Capitão descobre que a HIDRA (forma Marvel de dizer nazista sem dizer nazista) está conduzindo experimentos bizarros pra criar seu próprio super soldado afim de rivalizar com o capitão. A partir daí, sentindo-se na obrigação de resolver o problema, o Capitão parte em uma missão de investigação, infiltração e, claro, porrada. Muita porrada. A trama se passa num intervalo curto, coisa de um ou dois dias ininterruptos. E eu gosto muito disso. Gosto de jogos que te colocam num pedaço de tempo bem delimitado, quase em tempo real. Sem mundo aberto e sem sidequests arrastadas. Você vive uma missão intensa, fechada, quase como se estivesse vendo (ou jogando) um filme mesmo. Isso me pega.

Mas, a verdade é que o contexto aqui é praticamente só uma desculpa para descermos porrada em nazistas. E nem preciso de muito para me convencer. O que nos leva a gameplay que é focado em dois pontos: O combate e o Parkour.

O combate do jogo é claramente inspirado no sistema freeflow dos jogos do Batman Arkham. E não falo isso como crítica... muito pelo contrário. O que temos aqui é um combate de câmera dinâmica, cheio de estilo, com foco em ritmo e resposta rápida. Mas o que surpreende é que ele vai além do simples copiar-e-colar. O Capitão tem à disposição um arsenal de movimentos que deixa o gameplay variado e muito gostoso de controlar. Ele pode aparar golpes, desviar de tiros, agarrar inimigos, atirar o escudo com precisão, fazer o escudo ricochetear em múltiplos inimigos e até desviar tiros nos inimigos... e tudo isso com uma fluidez absurda. Quando você encaixa uma sequência perfeita, a sensação é de estar realmente encarnando o Capitão América. É cinematográfico. É plástico. É viciante.

O sistema de inimigos também ajuda. Tem variedade suficiente pra te forçar a adaptar o combate: soldados comuns, tanques humanos, snipers, cientistas com armas especiais, robôs e até... aberrações telecinéticas... ninguém é só esponja de dano. Cada um exige uma abordagem diferente. E o jogo te dá ferramentas pra isso. E, sinceramente? Me diverti mais com o capitão do que com muito jogo recente que finge profundidade mas te limita a três/quatro botões e uma animação genérica (Dark Souls e derivados... estou falando de vocês).

Já o parkour... bom, tá lá. Funciona, mas não emociona. É protocolar. Escalar paredes, saltar entre beiradas, se pendurar em cabos... tudo com uma mãozinha do jogo que beira o automático. Raramente você vai parar e pensar: “como eu chego ali?”. É só seguir o fluxo. Não atrapalha, mas também não empolga.

Sabendo de suas limitações, o jogo é curto. Dois dias de jogatina e terminei. E, olha... isso é ótimo. Não tem enrolação. Não tem mapa gigantesco com 300 ícones inúteis. É direto ao ponto, com começo, meio e fim. Depois que termina, você pode brincar com alguns desafios extras: arenas de combate, puzzles simples, medalhas... não é revolucionário, mas me serviu como sobremesa. Voltei por puro carinho, e isso já diz muita coisa.

Se tem uma coisa que eu acredito que deveria ter sido acrescentado na gameplay seria a presença de momentos stealth. Acho que a ideia "Capitão America invadindo bases inimigas" caberia muito bem com algum modo furtivo dentro do game, mas, talvez isto fizesse as pessoas associar demais o jogo como uma mera cópia de Batman Arkham Asylum.

O diretor do jogo é Brando Gill, apesar de não ter um grande renome, já trabalhou em outras franquias de sucesso como Luigi’s Mansion: Dark Moon, Super Mario Strikers e Spider‑Man: Friend or Foe. Se não é um know-how espetacular, pelo menos não é decepcionante..

O final termina com um baita cliffhanger pra uma continuação que, infelizmente, nunca veio. A recepção da crítica e vendas foram mornas e o jogo ficou esquecido na prateleira da sétima geração. Mas jogar isso hoje, em 2025, foi quase como redescobrir um pequeno tesouro. Em tempos em que os jogos querem ser tudo ao mesmo tempo agora, cheios de sistemas, grinding, conteúdo artificial e campanhas eternas... encontrar algo assim, compacto e direto, é como tomar um gole de água limpa.

E preciso terminar dizendo isso: reviver essa aventura foi muito melhor do que eu esperava. Achei que ia esbarrar em controles travados, mecânicas ultrapassadas, mas não. Tudo aqui, mesmo quando simplório, funciona. E funciona bem. É um jogo pequeno, com poucos sistemas... mas que sabe muito bem o que quer entregar. E entrega. A sensação de estar dentro de um filme do Capitão, no meio da guerra, lutando contra uma organização sinistra... cara, isso por si só já me ganhou.

Se é perfeito? Não. Mas a perfeição, como diria um certo Capitão por aí, está nos olhos de quem vê.

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